segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

O DIA-A-DIA DE QUEM PRECISA DIZER: BOM DIA!

Professor Wagner Freitas

Data: 12/06/2005

O que se passa com a humanidade? Será que estamos nos tornando seres alienígenas e não sabemos? Tudo parece ser novo e como tudo que é novo mete medo, estamos com medo de nós mesmos. As pessoas não se olham mais como nos velhos romances de amor. Tudo parece estranho. O imediatismo se aliou com o medo e nós temos ojeriza do outro. Se o outro não for um dos nossos conhecidos, este passa a ser mais que o outro, passa a ser, extra outro. Mas porque dessas abstrações descritas por mim?

Tudo porque percebo que a minha cidade emprestada – pois a verdadeira é a de origem – é uma pequena/grande São Paulo. Ao acordar, somente escuto os pôsteres que estão colados na parede me desejarem bom dia. Se vou a um supermercado, as máquinas facilitam o meu retorno à casa, por isso também quase não falo com ninguém <> Quando chega ao meio-dia ligo a TV e assisto ao programa de Varela, percebo o quanto meu Estado se parece com a metrópole chamada São Paulo. Tomo um breve banho (se demorar a minha marmita esfria), almoço e saiu correndo para poder pegar o coletivo ainda em tempo.

Minha verdadeira angústia começa logo aí. Para começar, preciso ser esperto e tentar ser um dos primeiros a subir no ônibus que já vem superlotado. A multidão se aglomera e ninguém respeita a fila – aliás, nem fila existe. Já dentro do ônibus, encontro um motorista completamente apressado para poder chegar ao seu destino no horário. O cobrador nem vê as pessoas direito, pois está preciso no seu troco ou nas colagens de vale transporte. Se der uma sorte, e eu achar lugar, ótimo. Preocupo-me com as pessoas que não acham lugar e além de irem em pé, ainda levam consigo pastas imensamente pesada; peço para que me dêem para eu poder segurar. Mas isso é uma exceção da regra. Atônito fico eu a perceber que são poucas as pessoas que se falam. Imagino o que será que se passa em cada cabeça durante os seus silêncios. Por que será que as pessoas cada vez mais fogem das outras? E para piorar ainda mais, existem ônibus que somente oferecem um lugar para se sentar.

Na faculdade, os grupos estão a postos. Um monte de tribo falando sua língua. E se o outro aproxima, já se vê uma aversão ao que o outro irá dizer. O outro procura falar o necessário, pois já que não existe intimidade, prolongar pra quê? Se passarmos para sala de aula o quadro é semelhante, um monte de grupo entreposto na parede. Parece que somos eternos rivais lutando entre si por um espaço aparentemente de todos. E aqueles professores que se preocupam apenas com o seu ínfimo dever de conceder uma mera aula e acham que já contribuíram com sua parte para o nosso belo quadro social. Volto para casa com a certeza de que o mundo está ficando mudo, ouvindo somente as máquinas vomitarem zoadas horripilantes ao nosso ouvido. Nisso o tempo já passou, muitas leituras já foram feitas e eu nem dei contas de todas; quando vejo: está na hora de ir dormir. Aí eu falo com Deus e não ouço a sua voz. E ainda querem que eu diga amém a tudo isso? Deus não deixa. Um eco sai de minha garganta: por mais que sejamos levedos a sermos individualistas por causa desse modelo econômico, não deixemos que nos coloque uma máscara de ferro – semelhante a que existia no feudalismo – servindo-nos de consolo apenas o silêncio não quebrado pela omissão de ter ouvido ou dito uma pequena palavra que fosse.

Por: Wagner Freitas.

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